Quem tem besta não compra cavalo.

No último dia 26 de junho enquanto o Brasil chegava ao fatídico número de 56.109 pessoas mortas pela COVID-19, com um incremento diário de 1.055 óbitos (de acordo com os números oficiais que como sabemos são subnotificados a mando do palácio do Planalto), o presidente Jair Bolsonaro fez mais uma aparição demagógica e totalmente sem utilidade na atual conjuntura do país.

Veio ao Ceará para “inaugurar” uma obra já inaugurada por Lula, Dilma e até pelo vampiresco Michel Temer.

O que Bolsonaro “inaugurou” na última sexta-feira, foi apenas um trecho da obra, que estava 94% pronta quando ele assumiu o governo.

O projeto da transposição do Velho Chico remonta à década de 1840, no tempo do Império do Brasil sob o reinado de Dom Pedro II, já sendo vista, por alguns intelectuais de então, como a única solução para a seca do Nordeste. Os dois anos de estiagem que o Nordeste enfrentou – de 1844 a 1845 – motivaram o intendente da comarca do Crato, no Ceará, Marcos Antônio de Macedo, a propor um projeto para trazer água do São Francisco para o seu estado. O canal partiria de Cabrobó, em Pernambuco, para abastecer o rio Jaguaribe, um dos principais do Ceará. Foi o primeiro projeto de transposição das águas do rio São Francisco, elaborado em 1847. Naquela época, não foi iniciado o projeto por falta de recursos da engenharia.

Durante o século XX todos os presidentes, democratas burgueses ou ditadores militares( examinando de perto são a mesma coisa), sempre debateram, deliberaram sobre o projeto da transposição das águas como uma forma de combate à seca do Nordeste.  O primeiro projeto consistente surgiu na ditadura empresarial militar, sob a batuta de João Batista de Oliveira Figueiredo, quando Mário Andreazza era Ministro do Interior, após uma das mais longas estiagens da história (1979-1983) e foi elaborado pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS).

Após a redemocratização não houve nada de consistente em relação e este grandioso projeto, apenas uma assinatura aqui, um decreto ali, uma demagogia acolá. Foi apenas no governo Lula que a coisa saiu do papel. Durante o primeiro mandato o Presidente Lula,  contratou as empresas Ecology and Environment do Brasil, Agrar Consultoria e Estudos Técnicos e JP Meio Ambiente para reformularem e continuarem os estudos ambientais para fins de licenciamento do projeto pelo IBAMA. O projeto foi colocado à cargo do Ministério da Integração Nacional, comandado pelo então ministro Ciro Gomes, a época ferrenho defensor da proposta e considerado, junto à Lula, o grande realizador da iniciativa. Hoje Coroné Ciro Sardinha Gomes atua como desprezível golpista e é mais falso que nota de três reais.

Mas o fato é que não se pode apagar a história, a despeito do que tentam fazer os direitistas em blogs e canais do YouTube, a exemplo do guru debilóide Olavo de Carvalho. 

Mas quem precisa da história? De que servem os fatos, quando se tem um secto de bestas cegas, raivosas e obtusas?

Esse apoiadores de Jair Bolsonaro comportam-se como bestas, em dois sentidos que a palavra pode assumir – como feras prontas a defender seu “messias” com a própria vida. Levados como que por um transe religioso, a combater incondicionalmente pelo mandatário atual, sem questionar ou parar um só minuto  para verificar uma simples notícia ou um fato concreto. No sentido que usamos aqui no Nordeste, que na verdade é uma extensão do primeiro, agem como idiotas, bobos, imbecis úteis – como Bolsonaro costuma se referir aos militantes da esquerda – sempre prontos a glorificar o “mito” ou na impossibilidade de fazê-lo porque talvez ainda lhes reste alguma vergonha na cara, tem sempre pronto o jargão: mas e o PT?

Digo-lhes: o PT foi o responsável pela transposição do Rio São Francisco.

Chora bolsominion!!!

O mito do empreendedor

ILUSTRA: VITOR TEIXEIRA

Pediram-me para representar em uma única  imagem o que é o capitalismo. Essa ilustração acima é seu retrato fiel, sem sofismas nem fantasias.

A bicicleta não é dele; a bolsa teve que fazer um “investimento”. Trabalha cerca de 12 horas por dia. Passa fome entregando comida. Sem vínculo empregatício, nem com o restaurante no qual ele é “fixo”*, nem com o aplicativo, nem com ninguém. Só tem vínculo com sua sobrevivência. Não tem nada para oferecer em troca além da sua força de trabalho. Sua própria vida. O homem com o chicote é a parte fetichizada da relação, que está tornando-se a cada dia mais nítida.

Estima-se que a legião de trabalhadores em condições precárias segundo números do IBGE gira em torno de 41% das pessoas ocupadas, mas sem emprego formal. Em relação à taxa oficial de desemprego o número oficial é cerca de 12,2% (IBGE) para o primeiro trimestre deste ano.

Estamos vivendo uma era dos sonhos para os capitalista especialmente para os grandes monopólios. Todos os direitos adquiridos pela luta do movimento dos trabalhadores durante séculos estão sendo ferozmente destruídos.

A classe trabalhadora já sabe que só se consegue alguma concessão por parte da elite com luta! O problema é que nas últimas décadas a infame ideologia neoliberal vinha galgando posições entre a classe trabalhadora com o mito do “empreendedorismo” no qual a massa de trabalhadores informais e precarizados*, vinha sendo convencida de que eram na verdade empreendedores. Uma espécie de selfmade man ao bom estilo gringo.

Motoristas e entregadores por aplicativo, revendedoras de cosméticos, vendedores de produtos terapêuticos e magnéticos, distribuidores de produtos dietéticos, pirâmides financeiras em geral, corretores de imóvel e seguros, só para citar alguns ramos. Pessoas que foram enganadas pela conversa fiada de líderes motivacionais de toda espécie, seguem na sua luta por sobrevivência acreditando que não tem patrões. Que são os proprietários dia seus próprios negócios.

Leon Trostky um dos líderes da Revolução Russa escreveu no início do século XX : “…A premissa econômica da revolução proletária já alcançou há muito o ponto mais elevado que possa ser atingido sob o capitalismo… As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e mina os sistemas monetários estremecidos…Os falatórios de toda espécie, segundo os quais as condições históricas não estariam “maduras” para o socialismo, são apenas produto da ignorância ou de um engano consciente. As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. Sem vitória da revolução socialista no próximo período histórico, toda a civilização humana está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe. Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”.*

E aí está o grande ponto! A crise sanitária causada pela COVID-19 agudizou e revelou todos os contrastes do capitalismo decadente. 

A paralisação dos entregadores por aplicativo é uma importante expressão da conscientização das massas de trabalhadores em situação precária. Sua organização junto aos demais setores da classe trabalhadora será fundamental para a nova fase de lutas que se avizinha. 

Trabalhadores do mundo, uni-vos!!!

*Os entregadores por aplicativo podem decidir qual a melhor categoria: fixo, nuvens ou ambas. O fixo é “parceiro” de um estabelecimento específico. Já quem trabalha nas nuvens é “livre” para atuar como “parceiro” de diversos estabelecimentos;

*Os modernos estudos da sociologia classificam essa massa de trabalhadores com ‘precariato’, embora seja uma maneira importante de entender este fenômeno, tal denominação parece distanciar esse trabalhadores dos demais proletários e perpetuar, de forma não intencional, o mito do empreendedor;

*Leon Trotsky – Programa de Transição da IV Internacional, 1938.

O capitalismo já falhou tantas vezes, por que insistem em tentar implantar versões dele? (SIC)

Um post em uma rede social com este tema chegou a minhas mãos por intermédio de uma amiga, com a qual sempre converso sobre política, história e economia. Ela me pedia para ler o texto e tecer comentários a respeito. Eis a minha resposta:

Prezado Carlos parabéns pelo texto. Não fazia ideia da complexidade dos materiais usados na produção de smartphones. As imagens também foram muito bem escolhidas e além de ajudarem a ilustrar, serviram bem para preencher as lacunas por falta de conteúdo do texto.  As suas colocações são bastante óbvias, pois não se pode viver de outra forma no sistema capitalista. 

Permita-me uma singela contribuição para  um melhor entendimento sobre Capitalismo e Socialismo.

Por volta do século XI na Europa feudal, o homem desenvolveu um de muitos instrumento de trabalho, que revolucionariam a forma de fazer agricultura. Se fazia necessário um aumento na produção de alimentos. Acredite o que move as pessoas a trabalhar não é o capitalismo e sim o estômago. É necessário primeiro estar vivo, satisfazer as necessidades da barriga, para depois desejar as coisas da fantasia. 

Esse implemento agrário chamava-se charrua; uma espécie de arado com rodas, feito de ferro, que permitia revolver a terra mais profundamente possibilitando assim melhores colheitas e maior quantidade de alimentos. 

Imagine só em 1300 e bolinha, conseguir produzir mais trigo, mais farinha e mais pão! 

Pois bem. Parte dessa produção ficava com o camponês para sua subsistência e de sua família. Uma outra parte ia para o senhor feudal e ainda o trabalhador camponês deveria pagar o dízimo, caso quisesse ter seu lugarzinho no céu ao término de sua laboriosa vida terrena.

A charrua e muitas outras ferramentas e tecnologias desenvolvidas na idade média atendiam aos propósito de aumentar a produção de bens para a população que eram produzidas e distribuídas num modo de produção feudal. Sim nobre amigo!!! Nem sempre existiu o capitalismo e mesmo assim as pessoas colaboravam entre si, com eficiência para produzir aquilo que a sociedade precisava. Esse arranjo produtivo descrito acima funcionou por cerca de 1.000 anos. Inacreditável não? A Europa vivendo, produzindo e circulando coisas durante um milênio sem o capitalismo. Como conseguiam? 

Mas daí aconteceu um fenômeno interessante: com o aumento da produção surgiu o excedente. Que fazer então com essa parte? Começou a desenvolver-se o comércio, as feiras, as manufaturas, de forma que o desenvolvimento das forças produtivas foi tamanho, que o sistema feudal não mais comportava essa potência produtiva e houve uma ruptura. Uma revolução burguesa que deu origem ao relativamente jovem (cerca de 300 anos) capitalismo selvagem que temos aqui diante dos nossos olhos. É verdade que o capitalismo era intuitivo, no sentido de inconsciente, automático, involuntário. 

É imperativo porém mencionar que o desenvolvimento das forças produtivas, dentro do próprio feudalismo, gerou essa ruptura. O gérmen de um novo modo de produção desenvolver-se no seio do seu antecessor e é impulsionado por suas contradições. Um outro ponto que merece observação é que essa transição não ocorreu da noite para o dia. Estamos falando aqui de séculos de mudanças nos quais coexistiam sistema feudal em declínio, mercantilismo em ascenção e as pessoas continuavam produzindo sem capitalismo como o conhecemos. 

Porém algo de diferente aconteceu. Um efeito colateral. Ao passo que as forças produtivas em acelerado desenvolvimento produziam super ambulância de mercadorias, a maioria das pessoas mal conseguia comer. No século XIX na Inglaterra por exemplo, era comum jornadas de trabalho de até 16 horas, de homens, mulheres e crianças. Essas famílias no entanto vivam em extrema privação e os problemas sociais se agravam a cada dia, pois embora essa massa de trabalhadores e trabalhadoras produzissem um infinidade de bens eles não tinham condições de consumi-los e quem se apropriava do excedente era apenas uma pequena fração da sociedade. Os capitalistas. Falo evidentemente de pessoas possuidoras dos meios de produção, as quais controlam todo o desenvolvimento social, não de uma pessoa que tem um IPhone e um carro financiado e se considera um “capitalista”.

As pessoas que dizem que o capitalismo não dá certo, estão equivocadas. Ele funciona muito bem, apesar de suas contradições internas como essa que mencionei anteriormente. A pergunta é: ele funciona bem para quem? 

No tocante a uma proposta socialista de produção também há falta de entendimento. Não se trata de trabalhar de graça ou por caridade. O trabalho é o mecanismo que produz toda a riqueza e o desenvolvimento das forças produtivas nos trouxe até aqui. Ele sempre continuará existindo, independente do modo de produção vigente. No entanto se essa produção será pensada por toda a sociedade e para o usufruto de todos ou continuará uma anarquia sem controle onde tudo é produzido para o mercado, com o excedente sendo acumulado por uma minoria, sem se levar em conta as reais necessidades das pessoas é a questão chave. 

Poderá esse sistema que produz a cada seis meses um novo smartphone visando lucro ao invés de produzir vacinas perdurar?

Será que ainda irá longe um modo de produção que está acabando com os recursos naturais?

Como ficará o contraste  da superprodução de mercadorias e do empobrecimento das massas?

Ao desenvolver as forças produtivas e explorá-las ao máximo, o capitalismo aumenta a sua contradição interna, cavando assim sua própria cova.

Abraço.