O mito do empreendedor

ILUSTRA: VITOR TEIXEIRA

Pediram-me para representar em uma única  imagem o que é o capitalismo. Essa ilustração acima é seu retrato fiel, sem sofismas nem fantasias.

A bicicleta não é dele; a bolsa teve que fazer um “investimento”. Trabalha cerca de 12 horas por dia. Passa fome entregando comida. Sem vínculo empregatício, nem com o restaurante no qual ele é “fixo”*, nem com o aplicativo, nem com ninguém. Só tem vínculo com sua sobrevivência. Não tem nada para oferecer em troca além da sua força de trabalho. Sua própria vida. O homem com o chicote é a parte fetichizada da relação, que está tornando-se a cada dia mais nítida.

Estima-se que a legião de trabalhadores em condições precárias segundo números do IBGE gira em torno de 41% das pessoas ocupadas, mas sem emprego formal. Em relação à taxa oficial de desemprego o número oficial é cerca de 12,2% (IBGE) para o primeiro trimestre deste ano.

Estamos vivendo uma era dos sonhos para os capitalista especialmente para os grandes monopólios. Todos os direitos adquiridos pela luta do movimento dos trabalhadores durante séculos estão sendo ferozmente destruídos.

A classe trabalhadora já sabe que só se consegue alguma concessão por parte da elite com luta! O problema é que nas últimas décadas a infame ideologia neoliberal vinha galgando posições entre a classe trabalhadora com o mito do “empreendedorismo” no qual a massa de trabalhadores informais e precarizados*, vinha sendo convencida de que eram na verdade empreendedores. Uma espécie de selfmade man ao bom estilo gringo.

Motoristas e entregadores por aplicativo, revendedoras de cosméticos, vendedores de produtos terapêuticos e magnéticos, distribuidores de produtos dietéticos, pirâmides financeiras em geral, corretores de imóvel e seguros, só para citar alguns ramos. Pessoas que foram enganadas pela conversa fiada de líderes motivacionais de toda espécie, seguem na sua luta por sobrevivência acreditando que não tem patrões. Que são os proprietários dia seus próprios negócios.

Leon Trostky um dos líderes da Revolução Russa escreveu no início do século XX : “…A premissa econômica da revolução proletária já alcançou há muito o ponto mais elevado que possa ser atingido sob o capitalismo… As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e mina os sistemas monetários estremecidos…Os falatórios de toda espécie, segundo os quais as condições históricas não estariam “maduras” para o socialismo, são apenas produto da ignorância ou de um engano consciente. As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. Sem vitória da revolução socialista no próximo período histórico, toda a civilização humana está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe. Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”.*

E aí está o grande ponto! A crise sanitária causada pela COVID-19 agudizou e revelou todos os contrastes do capitalismo decadente. 

A paralisação dos entregadores por aplicativo é uma importante expressão da conscientização das massas de trabalhadores em situação precária. Sua organização junto aos demais setores da classe trabalhadora será fundamental para a nova fase de lutas que se avizinha. 

Trabalhadores do mundo, uni-vos!!!

*Os entregadores por aplicativo podem decidir qual a melhor categoria: fixo, nuvens ou ambas. O fixo é “parceiro” de um estabelecimento específico. Já quem trabalha nas nuvens é “livre” para atuar como “parceiro” de diversos estabelecimentos;

*Os modernos estudos da sociologia classificam essa massa de trabalhadores com ‘precariato’, embora seja uma maneira importante de entender este fenômeno, tal denominação parece distanciar esse trabalhadores dos demais proletários e perpetuar, de forma não intencional, o mito do empreendedor;

*Leon Trotsky – Programa de Transição da IV Internacional, 1938.

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